(Para além de) Uma leitura concluída

Dia desses, concluí a leitura de um livro. Tratava-se de uma história do meu gênero literário preferido. Além de ser o meu gênero preferido, o autor era o meu preferido do gênero. Devorei suas quase trezentas páginas em menos de uma semana e as últimas dezenas, deixadas para outro dia, em pouco mais de duas horas. Pois bem, esse seria apenas mais um simples relato, não fosse por um detalhe importante: o outro dia das últimas dezenas de páginas foi quase um ano depois do início das primeiras.

A história havia proporcionado uma mistura boa de emoções dentro de mim ao longo da leitura. Sim, o livro tinha me tocado. Dias depois, perto do final, fechei-o e guardei na estante, planejando o término para outro dia em uma mistura de abatimento pela despedida iminente e medo de encarar o final da história. À essa altura ele já estava bem roteirizado em minha mente. Eu sabia onde tudo aquilo iria acabar. Quando estamos em sintonia com os conflitos e as personagens, isso costuma acontecer sem deixá-la menos interessante e bonita. Reviravoltas às vezes acontecem, às vezes não e, naquele caso, qualquer uma parecia inconcebível. O final tinha de ser aquele e seria – eu sabia, afinal, eu segurava todas as páginas escritas em minhas mãos, pensei.

livro

Assim, eu fui evitando, evitando, olhando para o seu nome deitado na estante, sem enfrentá-lo. Esperava por um momento mais tranquilo e oportuno para fazê-lo, arranjava desculpas, começava outras leituras, deixando-o para trás. Adiando, um ano depois, com a lembrança da coragem que eu deveria possuir, fui lá e peguei-o, a história já morna, sem a mesma intensidade dada pela velocidade e fluidez da leitura inicial. Cheguei ao final, triste, menos do que eu ficaria antes, mas com a mesma sensação de buraco dentro do peito. Sim, eu evitei o contato com o final da história mas tratava-se sobre mais do que isso.

É sobre os livros da nossa história, acredite. Sobre os nossos gêneros e autores preferidos porque nem sempre somos nós quem toma a caneta na mão e o poder da escrita fica com outro, ainda que o da leitura esteja sempre conosco. É sobre as histórias que abandonamos porque acreditamos em nossas falsas previsões sobre o desfecho. É sobre aquilo que deixamos de escrever. É sobre o clímax, as personagens, a saudade que ela deixa e sobre o que deixamos de enfrentar pelo nosso medo. Sobre esperar pelo momento certo. É sobre estar preparado e despreparado. É sobre saber o que se quer e não ter coragem de seguir em frente. É sobre tudo o que deixamos para outro dia e esse dia ser muito tempo depois. É sobre o que está nas entrelinhas.

Nossas histórias não merecem ser abandonadas na estante. Histórias devem ser escritas e lidas a tempo. Estantes são para deixa-las expostas aos nossos olhos, aos olhos de outras pessoas queridas, e vivas em nossas lembranças. É para posterizar e eternizar.

 

* À título de curiosidade: o livro em questão tratava-se de Querido John do Nicholas Sparks. Pois é. Eu comecei a lê-lo em 2012 e terminei entre Agosto e Outubro do ano passado, 2013.

Quanto a essa postagem, bem, publico quase três meses depois de escrevê-la.

 

Quantos livros e histórias você deixou para depois? Quantas outras retomou?

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2 comentários sobre “(Para além de) Uma leitura concluída

  1. “É sobre saber o que se quer e não ter coragem de seguir em frente. É sobre tudo o que deixamos para outro dia e esse dia ser muito tempo depois.” Descreveu minha vida em duas linhas. Mas acho que não fico feliz por isso… =/ Você escreve muito bem. Parabéns!

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