Falando mais uma vez de amor

supermercado

Texto fictício escrito há 2 anos atrás

Essa sou eu falando mais uma vez de amor. Pondo as cartas na mesa de um jogo que sei todas as regras, mas ainda não aprendi a ganhar. Embaralho todas elas, querendo parecer esperta mas, pra começar, sequer tenho um parceiro sentado na outra cadeira. Invento histórias com pares aleatórios, caras que só vi uma vez na vida ou que acabaram de passar por mim no shopping. Espero sentada e em pé, correndo e andando. Espero falando e calada, mas espero, o tempo todo, certo ou errado, esse sentimento que dizem por aí ser o combustível que move o mundo. Esse tal sentimento digno dos deuses. Espero o tempo todopor alguém que me faça viver aquilo que só vi nos filmes e livros, como todo mundo no fundo espera.

Aí invento de procurá-lo em todos os lugares. Na livraria enquanto caminho entre as prateleiras, no percurso de cinco minutos até a padaria pela manhã. Entre uma sessão e outra do supermercado, na fila do cinema, na multidão do shopping em véspera de Natal. Entre os amigos dos meus amigos na balada e entre os amigos dos seus amigos também. Olho dezenas de rostos, fixamente, esperando alguma coisa aqui dentro começar a se mexer. Pode ser borboletas no estômago ou uma explosão de fogos de artifício. Pode até ser algum tipo de energia atravessando o espaço entre nós e estabelecendo uma conexão para a vida toda. Sabe aquela história de encontrar alguém que procurava, quando não se fazia a menor ideia de quem estaria procurando? É mais ou menos assim que eu ando por aí.

Só quero mesmo alguém que puxe uma conversa boba donada para descobrir qual é o meu nome e o número do meu celular. Se não for pedir demais, esse mesmo alguém poderia ter fôlego e coragem para me convidar pra tomar um sundae em seguida. Eu já sei que vou achar divertido e torcer pra que não pare por aí. Alguém que se aproxime de mansinho e inicie uma conversa, após me observar de longe, sentada no banco do parque com um livro aberto em uma manhã de domingo. Não só por querer ser simpático, mas porque encontrou alguém que gosta de livros tanto quanto ele. Só quero mesmo alguém que bata o carrinho do supermercado no meu e sorria sem querer desviá-lo. Alguém que logo em seguida pergunte onde fica a sessão de Cama, Mesa & Banho como desculpa para ficar um tempo a mais ao lado da desconhecida. Só quero alguém que, dias depois de conhecer, eu já sinta que é a melhor coisa que poderia ter me acontecido, sem medo, sem considerar esse pensamento precoce demais. Melhor ainda: quero alguém que pense dessa forma junto comigo.

Enquanto esse dia não chega, eu continuo inventando histórias. Produzindo curta metragens, deixando passar trailers em minha cabeça e escolhendo músicas para compor a trilha sonora. Assistindo o pôr-do-sol, conversando com o mar e dando as mãos ao vento. Recolhendo flores para me presentear, sorrindo pra qualquer pessoa que passa perto de mim na rua ou que se senta ao meu lado no ônibus. Fazendo transbordar por aí o que está em excesso dentro de mim e ainda assim nunca diminui a quantidade. Enquanto esse dia não chega, continuarei falando de amor porque talvez não saiba falar de outra coisa tão bem.

Porque talvez seja apenas isso que eu respire.

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4 comentários sobre “Falando mais uma vez de amor

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