Chamaram-me: – Parda! Parda sim – Parda sou?

Há aquela cor que a unanimidade diz que você é, a que você acha que é no encontro com uma superfície que gere reflexo e aquela que você é, verdadeira e reconhecidamente. Esta última, pautada nas relações sociais, somada a recortes de classe, expressa nos traços que carrega e remontada pela árvore genealógica. Nem sempre, porém, essas cores se encontram e se apresentam de forma firme e explícita. Nem sempre é tão fácil assim, é mais comum o contrário. Isso porque nosso país sofreu o processo de miscigenação e reconhecer a própria negritude é um processo quase sempre doloroso, reflexo de uma negação histórica da identidade do povo preto, do silenciamento de suas vozes e corpos. Assim crescemos, assim interagimos, assim nos disseram e assim formou-se a nossa subjetividade: uns negros de verdade, outros mais brancos do que negros, aqueles pardos, os moreninhos e os mestiços.

O povo preto sofreu uma fragmentação, foi dividido e separado, sendo tomando como base a sua heterogeneidade natural, para que assim pudesse ficar enfraquecido e, não raramente, não conseguimos reconhecer nos outros e nas outras que somos apenas um só – e é exatamente isso o que a burguesia e a classe dominante querem. Todas e todos nós, porém, temos um ancestral comum vindo de África: e é isso o que nos une enquanto um só povo.

Quando a pigmentação da pele é mais escura, é mais fácil reconhecer a negritude porque será através dela que a sociedade calcará as bases da exclusão. Quanto mais pigmentada a cor da pele, quanto mais traços negróides a pessoa tiver, mais negra ou negro a pessoa será enxergada e considerada. Quanto menos pigmentação receber a sua pele e traços mais próximos do europeu tiver, mais privilégios terá, e isso é inquestionável, mas branca ela nunca será e a sociedade cumprirá a tarefa de lembrá-la diariamente.

Filha de casal inter racial – minha mãe é branca, graduada; meu pai é negro, ensino fundamental incompleto –, durante minha infância me questionei sobre a minha cor, analisando meu próprio corpo, rosto, braços, pernas, barriga, esperando assim uma resposta sobre quem eu era de verdade. Meus parentes paternos também são negros e, me denominar branca, tentativas as quais já fui empurrada, antes de tudo, para mim seria rejeitar o que eu tinha de semelhante com minha descendência paterna, com a qual tive uma convivência limitada. Aos 12 anos, sabia que nem eu e nem ninguém poderia me chamar de branca, porque branca eu não era. Então, durante anos me auto denominei – e ainda me denomino – de parda, o que, para mim, seria estar entre o negro e o branco, mas mais pro branco do que pro negro, segundo a pigmentação da minha pele.

Isso resumia meu sentimento de estar entre: deter privilégios inquestionáveis por ter a pele clara, ser mais facilmente aceita, mas, ainda assim, carregar a certeza de que branca nunca seria. Havia algo pulsando dentro de mim para me fazer lembrar disso. O desconforto que percorre meu corpo não me permite mais responder que sou parda com a mesma tranquilidade que tive durante um tempo. É como se dizer a mim mesma que sou parda, fosse uma estratégia de auto defesa que, ao mesmo tempo, provoca a angústia do não pertencer.

Cabelos cacheados, longos e cheios de volume. Cabelo esse onde já foram jogadas bolinhas de papel, a ameaça de esconder objetos, que recebeu o apelido – com intuito de ser pejorativo – de “Maria Bethânia” e durante quase dois anos inteiros ficou preso em rabo de cavalo, no intuito de amenizar o incômodo que causava quando solto. Tentei alisar uma ou duas vezes, mas parei quando percebi que escovar não funcionava e deixava ele feio, e minha mãe nunca quis pagar uma progressiva, relaxamento ou coisa do tipo – obrigada, mãe. Na quinta série, cortei meu cabelo acima do ombro em uma tentativa frustrada de abaixar o volume, o que resultou justamente no oposto, e passei a sétima série quase toda desejando, pelo menos, ter a franja lisa de verdade para ficar parecida as atrizes de filme adolescente. Agora, aprendi a gostar pra caramba do meu cabelo. Mesmo. E não consigo mais enxergá-lo, muito menos desejá-lo, dentro de padrões de alisamento.

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Volta e meia fixo o olhar em minhas fotos, tentando comparar e encontrar as diferenças entre meu tom de pele ao de outras colegas, companheiras e amigas, na tentativa de, de repente, tornar-me verdadeiramente consciente da minha cor. Moro em bairro popular da região metropolitana de Salvador, conhecido através dos casos de violência que passam na televisão. Meus cabelos são cacheados e volumosos, meu nariz e meu rosto são redondos e minha boca não é fina. E, inquestionavelmente, a cor da minha pele é bem mais clara do que a pele da maioria das mulheres negras que conheço. Para a sociedade, ainda que eu fosse considerada preta, jamais seria a mesma preta que a Camila Pitanga, que não é a mesma preta que Thais Araújo, que não é a mesma preta que Alcione, por exemplo, e ela sabe muito bem a quem serve essa afirmação.

Escrevo, porém, como uma forma de compartilhar uma inquietação sobre a qual ainda espero resposta, mesmo sabendo que ela provavelmente não será uma só. Mais do que isso, escrevo para que juntas, mulheres, possamos pensar a nossa identidade e cada uma ajudar a outra a reconhecer a si mesma, enquanto mulher. Pra dizer, ei, estamos juntas nessa, companheira porque sei que está longe de ser uma inquietação só minha nesse país miscigenado. Escrevo porque nós, mulheres, precisamos ouvir e fortalecer umas às outras de ancestral comum. Ainda estou em processo de auto descoberta, mas queria compartilhar essa minha crise latente.

Ser negra, ser negro, é um ato do reconhecer-se para se tornar, se construir, disso tenho certeza. Um ato de libertação e resistência. Só desejo que cada uma de nós possa se encontrar, encontrar sua própria identidade, e , nesse processo, se unir para ser mais forte.

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Por uma comunicação feminista e popular

feminismo

Quando as mulheres protagonizam, nossas conquistas raramente ganham visibilidade na grande mídia e por essa mesma razão, nem mesmo chegam verdadeiramente ao conhecimento de toda a população, de todas as mulheres da sociedade. Nossas conquistas raramente saem na televisão, viram notícia e matérias de jornais, estão nos outdoors das ruas e nas capas das bancas de revista. Quando as mulheres sofrem as dores diárias da opressão machista e do patriarcado, essas mesmas dores são silenciadas ou deslegitimadas pelos meios de comunicação, enquanto os números de mortes por abortos e feminicídio só fazem aumentar.

A mídia com frequência manipula e converte, propositadamente, os papeis: o agressor passa a conquistar a compreensão e cumplicidade do público, afinal, fica mais do que perceptível que ele não teve culpa nenhuma, enquanto a agredida, a violentada, a assediada, passa ser vista sobre a imagem construída de vítima algoz, porque se ela não quisesse, se ela fosse mais cuidadosa, se ela tivesse mais respeito próprio, a agressão não teria acontecido. O monopólio da mídia é das maiorias políticas – que estão bem distante de ser as maiorias sociais, o que expressa aí um importante problema de representatividade –, daqueles e daquelas cujo interesse é que o status quo permaneça porque é assim que eles se beneficiam e acumulam capital, às custas do sofrimento do povo. Enquanto meio de formação de opiniões, interesse nenhuma há. A liberdade das mulheres não lhes interessa.

A mulher. As mulheres. Aquela que desafiou a autoridade do marido e mereceu o murro na cara. Aquela que usou short curto, mostrou a barriga, bebeu demais e quis ser assediada sexualmente. Aquela que voltou pra casa em uma rua escura depois das onze horas da noite e se deixou ser estuprada. Aquela que “tentou se passar por mulher” e mereceu ser espancada. Aquela que é negra e foi feita pra ser objetificada. Aquelas que são mulheres, e só por ser mulher, isso é o bastante para sofrerem violência. É o bastante para serem tratadas como inferiores. Um minuto a mais no jornal de maior audiência da televisão pode ser tempo suficiente para justificar sobre argumentos machistas e misóginos a violência contra cada uma de nós, especialmente as mulheres trans, pretas e pobres da periferia. Uma hora e meia é suficiente para uma mulher ser vítima de feminicído em nosso país.

Pouco lemos, assistimos e escutamos sobre a vida das mulheres, porque falta espaço nos grandes meios de comunicação, mas muito vem sendo escrito e produzido sobre a vida das mulheres, sobre as opressões, agruras e lutas diárias das trabalhadoras, das jovens estudantes, das mães dessa sociedade. Há muito mais para ser feito por uma comunicação nossa, feminista e popular. Temos encontrado cada vez mais voz, mais força, mais união e apoio umas nas outras para nos expressarmos e a internet, sem dúvidas, tem contribuído bastante para atravessarmos as fronteiras da comunicação que o machismo impôs. Blogueiras, vlogueiras, colunistas, páginas no Facebook e sites da internet feministas, ou que somem à luta das mulheres, tem se multiplicado e isso expressa que o que temos a dizer ao mundo é muito e importante porque é sobre nossas vidas. As mulheres são escritoras, autoras, jornalistas, protagonistas da história e de suas próprias vidas, e a mídia precisa acrescentar e servir de instrumento para visibilizar as opressões, para a nossa libertação, que é também a libertação do nosso próprio povo.

Popularizar a comunicação significa que as mulheres poderão produzir conteúdo e enxergar a elas próprias neles,mulheres-em-marcha-por-uma-comunicação-feminista-e-popular mas, mais do que isso: significa que existirá maior abertura para a participação do povo preto, da periferia, das mulheres, dxs LGBTs e as informações não mais serão manipuladas por redes de televisão porque a mídia será democratizada e o povo, com sua voz protagonista, poderá escrever dele para e por ele mesmo. Significa que a comunicação servirá de instrumento para a nossa libertação, para o ganho em nossa representatividade, acompanhando e construindo, no mesmo passo, uma sociedade mais igualitária, justa e respeitosa para todas e todos. Significa que aquelas que sofrem agressões, assédio e violência terão vez. Os estereótipos que nos cercam enquanto mulher, não serão reforçados a todo instante e poderemos ser formadoras de opinião. Mulheres poderão e falarão sobre política, economia, futebol, ciência, feminismo e menos sobre moda, relacionamentos e cozinha.

O que podemos fazer, então? Compartilhar, escrever, produzir, indicar e ler conteúdo, matérias, artigos, páginas, vídeos, filmes, feministas e populares. Nos empoderarmos e empoderarmos nossas companheiras cada dia mais. Ir às ruas por uma comunicação que fale e respeite todas e cada uma de nós. Lutar por nossas vidas e as vidas das nossas companheiras através do feminismo.
Seguiremos em marcha até que a comunicação seja feminista e popular – e ela será.

Conhece os cartazes da 4ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres?
Há uma série de cartazes como o que ilustra essa postagem.

Agora, diz aí: quais blogs, revistas, colunas, vlogs, páginas, sites produzidas por mulheres e/ou para mulheres com proposta feminista e popular vocês conhecem e acompanham o trabalho? Tô pensando em fazer uma postagem só com indicações (: