O desafio histórico da Psicologia no enfrentamento ao Racismo

negritude

[Indicação de Leitura]: “Meu psicólogo disse que racismo não existe”

Essa é uma daquelas leituras importantes para todas e todos nós, psicólogas em exercício e futuras psicólogas! A vivência do racismo é uma realidade dolorosa e sofrida em nosso país. Nossa profissão, infelizmente, tem mascarado a existência do racismo e contribuído a anos para que ele se mantenha. Pouco, como esse texto, infelizmente, se produz sobre as consequências do racismo para  a saúde mental do povo negro, sobre as relações raciais e o racismo em nossa formação, nas salas de aula que frequentamos.

“Depoimentos de pacientes revelam que muitos psicólogos não sabem lidar com questões raciais no consultório. A maior carência é uma formação que aborde o problema do racismo no Brasil.”

Continuar negando a discussão, o debate e o estudo aprofundado de como se configuram as relações raciais ao longo da nossa formação, é, cada vez mais, se distanciar de uma Psicologia que tenha sentido. Se distanciar de uma Psicologia, de uma prática que contribua pra saúde mental do povo preto, acolhendo as demandas de suas vivências e se atentando em como essas vivências atravessam a construção de sua própria subjetividade.

Diante do desafio implicado em ser estudante de Psicologia, dessa Psicologia que está hegemonicamente nos currículos e salas de aula do país, o que me mantém seguindo com minha formação é a certeza de que é possível construir uma ciência e profissão que seja de transformação, que contribua pra melhorar a vida de cada mulher, cada homem, cada jovem do meu país. É saber que uma Psicologia que tenha significado é, sim, possível e o meu forjar-se psicóloga seguirá pautado na certeza de que uma nova Psicologia vai surgir pro meu povo, que eu e tantxs outrxs estaremos nessa construção.

É na garantia dos Direitos Humanos que a Psicologia deve se pautar, é contribuindo para uma sociedade justa, igualitária e pelo fim das opressões em nosso país!

O desafio é grande e coletivo, mas não podemos recuar.

Sigamos psicologxs do povo!

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Porque não há congresso que alcance a beleza dos encontros

Mndala

I Encontro de Estudantes de Saúde de Salvador, dia 17 de Maio de 2015

Na última semana, tive duas experiências que me lembrarei com carinho: um congresso norte-nordeste de psicologia e a outra, um encontro de estudantes de saúde da Salvador. Na primeira, milhares de estudantes e profissionais, espaços simultâneas, apresentações de trabalhos, stands de exposições, gente de diversos sotaques de ambas regiões do país, se esbarrando pelo Centro de Convenções da cidade ao longo de quatro dias de evento sobre a Psicologia e Os Desafios do Mundo Contemporâneo. O segundo, centenas de estudantes do curso de saúde, juventude cheia de vontade em discutir, aprender e construir uma saúde que fale, compreenda, produza e paute a sua prática na vida do povo preto, pobre, das mulheres, dxs gay-bi-trans, do camponês, reunidas Em Defesa do SUS, por um Projeto Popular para a Saúde.

Uma, um congresso; a outra, um(uns) encontro(s).

Como disse, ambas estão guardadas com carinho pela carga de aprendizado e crescimento que me apresentaram, em diferentes proporções e direções. A minha experiência de participação no congresso, no entanto, não foi pautada por grande entusiasmo: era mais uma questão cumprir determinadas exigências acadêmicas, exigências externas a mim, mesmo certa de que não era e nem é ao academicismo que quero me servir. Era também, mesmo sabendo o que esperar, não ter certeza do que podia se esperar e esperar que fosse diferente, já que eu nunca tinha participado de um congresso como aqueles. É parte do processo de conhecer e reafirmar a minha luta por um outro Projeto de Psicologia, que não se paute apenas em pesquisas e nos não enfrentamento dos verdadeiros desafios de nossa profissão, que é falar sobre as gentes que precisam ser vistas e faladas.

Saí de um congresso norte-nordeste de psicologia rumo a um encontro de estudantes de saúde de Salvador. O congresso terminou na manhã do sábado e, mesmo cansada dos três dois dias anteriores de sair de manhã cedo e chegar à noite, peguei o ônibus rumo a universidade para assistir a programação daquela tarde – a mesa redonda sobre . Foi o encontro, ele sim, que fez meu coração vibrar e os olhos lacrimejarem. No encontro, sentada em uma das cadeiras verdes do auditório do campus de arquitetura, me senti em casa. Não pelo auditório em si, nem aquela cadeira verde. Por quê será, então? Eu sei que sinto que é a força e a beleza dos encontros.

Os dois ocorreram ao mesmo tempo, em lugares diferentes, e, enquanto estava em um, o coração apertava um pouquinho querendo estar no outro naqueles momentos. Isso tudo porque não há congresso que consiga bater os encontros. Era o encontro da juventude em defesa de um projeto de saúde para o povo, de um SUS verdadeiramente do povo, dispostas e dispostos a discutir, dialogar e construí-lo coletivamente, mas também o encontro de esperanças, de forças, de coragem, de companheiras e companheiros para somar à luta. Encontro de sorrisos, abraços e brilho nos olhos. Os encontros que guiam o coração, que guiam os estudos e a formação, que guiam os próximos passos dentro e fora da universidade, encontros que transformam.

E saio do encontro, antes da hora do jantar do domingo, com o coração grato pela experiência que tive e mais força para me manter firme na luta, por todas e todos. Pelos que aqui estão e pelos que vierem.

Juventude com atitude, rumo à Conferência Municipal de Saúde!

Zefa da Guia

Juventude com atitude, pra defender a saúde! (com Zefa da Guia e Grupo Encantarias)

O CONPSI que me desculpe, mas não há congresso que bata os encontros:

É a força e a beleza do Projeto Popular!

Sobre a quarta-feira passada, 13 de Maio

Abolição da escravatura.

Aniversário de dois anos da turma.

Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas.

Montagem postagem

A quarta-feira 13 de Maio é uma data marcante no calendário, pessoal e histórico, por três acontecimentos, em ordem de cronológica e significados distintos: a abolição da escravatura (ou melhor, o dia em sua uma princesa assinou um pedaço de papel em 1889), aniversário da minha turma de Psicologia e seminário de Psicologia e Políticas Públicas.

Em 1888, contam os mesmos livros de história em que xs guerreirxs do povo negro e seus levantes não são lembrados, que a princesa Izabel assinou a Lei Áurea e libertou todo o povo negro da escravidão. E, a partir desse dia em diante, elxs caminharam contentes pelas terras do país, supostamente distantes de todo sofrimento causado pelas chicotadas dos senhores e condições desumanas da escravidão. O que os livros de história não nos contam é que o povo negro caminhou com os pés descalços e calejados, sofridamente, sem ter exatamente para onde ir, com o estômago vazio e ferida aberta rasgando a carne. Que caminhou e continua caminhando, resistindo; Que a tal princesa não assinou a lei por pura bondade, mas por pressão internacional. Pela defesa de interesses por um mercado consumidor e de uma determinada burguesia. Que se tratou, na verdade, de uma liberdade forjada, até os dias atuais, por uma classe dominante e opressora.

Abolição da Escravatura, libertação do povo negro escravizado? Quando o povo preto é exterminado todos os dias, é criminalizado pela sua cor, sofrendo com o racismo que os coloca em um lugar histórico de subgente, de um povo desprezível, a gente pode mesmo afirmar que em 2015 do século XXI se vive em uma sociedade onde as pretas e pretos são livres e iguais ao restante da população? Enquanto o povo preto vive nos morros e favelas, distante das vistas do centro das cidades, com casas nas encostas, ignorados pelo poder público que nada faz diante de mortes previsíveis causadas pelos deslizamentos em tempo de chuva e as mulheres pretas morrem diariamente vítimas de aborto clandestino, precisamos nos perguntar: será possível mesmo que ainda existe gente que acredita que todas essas questões se reduzam a uma questão de escolha? O povo preto ainda está preso: a opressão racista, à desigualdade, à criminalização. Algumas correntes conseguiram ser vitoriosamente rompidas através de muita luta popular, mortes e resistência, mas o chicote ainda bate no lombo desses homens e mulheres todos os dias em uma sociedade opressora como a nossa.

Há dois anos atrás, tive o meu primeiro dia na universidade, na faculdade de Psicologia da UFBA, da Semana das Calouras – o primeiro dia com a minha turma. É com gratidão que olho para a turma do primeiro semestre de 2013, a turma a qual pertenço, porque mais harmoniosa e cheia de pessoas legais não podia ser. 13 de Maio é uma data simbólica significativa para mim, porque me faz lembrar que entrei na sala de aula naquele primeiro dia do primeiro semestre de uma forma e agora me construo sob uma outra base, sou uma outra pessoa, completamente diferente e mais empoderada, convicta da psicóloga que quero ser e do projeto de Psicologia que defendo, da Psicologia que construo. Certa, principalmente, de que há muito mais para crescer e aprender na luta pela vida das mulheres, do povo preto e pobre das favelas.

Há alguns dias atrás, participei com colegas de turma do 8º Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas. A primeira mesa redonda foi maravilhosa, composta por três profissionais, dois homens e uma mulher. O primeiro palestrante foi muito bom, e o último, com a melhor fala entre os presentes, tinha uma bagagem de mais de dez anos em gestão do SUS. Não o conhecia, mas era dava pra perceber que ele é referência na área e naquele momento ele se tornou uma referência pra mim e outras pessoas presentes, que levantaram para bater palmas em sua fala final.

Esse dia me ajudou a tomar uma decisão. Estava em dúvida sobre qual categoria em um estágio me inscreveria e, naquele momento, entre as palavras dele cheias de conhecimento e propriedade, como um clique a resposta surgiu: GESTÃO.

A turma aproveitou o dia do seminário para tirar uma daquelas fotos agradáveis que se guarda de lembranças e almoçarmos juntas. É bom estar com gente que a gente se sinta bem.

Isso é um pouco sobre o significado das datas em nossos dias.